Quando estiver pronta


A vida tem mesmo um talento inato de nos revirar a alma, o rumo e a noção. A minha, pessoalmente, tomou um caminho de profunda introspeção. Há mais de um ano que não há dia em que não pensa que tenho que mudar de vida. Não há que não deseje ser eu mesma sem mais demoras. E cada vez mais este desejo urge em mim como um rugido de um leão aprisionado. Este rugido, tantas vezes em forma de lágrimas e cansaço extremo, berra-me agora aos ouvidos como nunca. É ensurdecedor. E então percebi: não consigo mais viver sendo quem não sou. Tendo medo em vez de alegria. Chorando em vez de rir. 

Eu era uma miúda alegre. Feliz. Bem disposta. Estava sempre pronta a lançar uma piada. 

Hoje… hoje sou um zombie de que fui e sonhei ser. E estou cansada. Desiludida. E a desistir. Porque para ser assim… não vale a pena ser.

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One thought on “Quando estiver pronta

  1. Desculpa mas irei sempre comentar.

    Estive 5 anos assim. Cinco. Hoje, sinto-me finalmente a recuperar-me. Pensava mesmo que não era possível. Pensava que, efectivamente, a vida tinha acontecido e eu tornei-me naquilo. Em tudo o que não gostava. Em tudo o que desprezava. Só queria morrer. Morrer. Não acordar. Trocar com alguém que estivesse doente e quisesse viver. Trocaria sem pestanejar. Só não o fiz porque não queria magoar os meus pais. Embora sentisse que era uma tremenda desilusão para eles. Na verdade, era.

    Depois, comecei a seguir uma menina de 16 anos, blogger brasileira a viver em Boston (Chic by Carina), que tinha cancro nos ossos. Que menina. Que força de viver! Eu só queria dar a minha vida por ela. Como é que uma miúda sofria tanto e era tão positiva? Tão verdadeiramente iluminada? A Carina fez-me sentir tão culpada. Muito culpada. Só queria que ela ficasse com vida. Ao invés de mim. Até à última a Carina lutou. Foi tão doloroso. A Carina morreu e eu prometi-me que iria aguentar-me. A Carina morreu e ainda hoje sigo a sua conta e a da mãe no Instagram. Chorei tanto. Assisti ao velório em livestreem porque ela tinha milhares de seguidores por todo o mundo.

    Em seguida, apareceu-me a Mara. Uma miúda com todos os problemas e mais alguns. Uma miúda que se cortava. Que se castigava. Uma miúda tão bonita mas que não o consegue ver. Que acha que é menos que os outros. Que ainda não consegue olhar-se ao espelho. Quis tanto deitar-lhe a mão. Tentei. A certa altura, achei-me tão hipócrita. Quem sou eu para ajudar seja quem for, se não sei ajudar-me? Nunca soube. Sempre soube castigar-me. Isso está nos meus genes. Até quando era eu.

    Bem, à conta disso, busquei por ajuda. Aqui estou, aos solavancos. Ainda a acertar muitas coisas. Uma depressão de anos tem muitas sequelas e não se cura de um dia para o outro. Preciso de ter força para levantar-me da cama (o que raramente tenho). Pareço um zombie. Agora, um pouco melhor com a nova medicação mas voltei a andar mais irritadiça.

    Mas o melhor é que já sorrio. Vou na rua e apetece-me sorrir às pessoas. Ser gentil. Já me vejo de volta e, meu deus, juro que não achava isso possível. Voltar a ser aquela miúda corajosa, forte, brincalhona e gozona. (Basta veres os meus posts até lá para 2009.).

    Eu sei que é uma lenga lenga mas também estou a aprender que aquela pessoa não era mesmo eu. Era a p**** da doença. DIabetes, uma gripe, uma úlcera no estômago fazem mossa mas o cérebro, o cérebro fica doente e põe todo o corpo doente.

    Ana. Dá as voltas que for necessário. Vai a 10000000 médicos. Troca a medicação as vezes necessárias (Mas nunca a interrompas por auto-criação. É muito perigoso e aumenta os sintomas da depressão. Os pensamentos maus.). Agarra na prancha e vai surfar. Vai surfar. Precisas de uma actividade física que te desafie e dê prazer. Isso ajuda tanto mas tanto na cura. Aliás, se não fosse a dança, já cá não estaria.

    Ana vais reencontrar-te. E tu queres. O resto é a doença a tentar dominar-te. (Mas tu és forte, lembras-te? Eu vejo no futuro uma miúda sorridente, gira nas horas, com a auto-estima recuperada, com uma actividade profissional que lhe dê prazer, de prancha na mão rodeada de pretendentes. Vais ser feliz Ana. Garanto-te. Também o vou ser. Na verdade, estou sem namorado (e felizmente já recuperei do desvario do desgosto), sem filhos, sem carreira de vento em poupa mas já me reconheço e, por isso, estou mesmo feliz. Achava mesmo que não seria possível. A partir daqui, só vou permitir que seja para melhor. Venham os contratempos que vierem, venham os desgostos que vierem. Nunca mais vou lhes dar tanta confiança. Acredito que sejas dessas mulheres, também.

    PS- Era suposto ser este fim-de-semana e o próximo tem a tal data. Tu nem penses em fazer asneira! Quero mesmo conhecer-te. Vai correr bem, Ana. Vai correr bem. Confia em mim. ❤

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