A pulseira laranja

Cheguei na Terça à noite mas hoje é Sexta e ainda não recuperei! Aliás, acho que agora é que o cansaço se está a apoderar de mim!!! Doem-me as costas, pernas e pés como se não houvesse amanhã! Auxhhh!

Mas o que aqui me traz hoje é a reflexão que tenho feito sobre a vida nas últimas semanas; tenho pensado muito, mesmo muito, sobre o sentido da vida e da morte; a forma como a depressão e o medo afectam o meu pensamento, e como seria a minha vida sem ambos.

Até que anteontem, nas mexidelas nas gavetas, dei de caras com uma pulseira laranja, de papel, com o meu nome, idade e data. Foi no dia 16 de Fevereiro de 2014, tinha eu 28 anos, quase 29. Aquela pulseira, a segunda mais grave na escala de urgências, causou-me calafrios. Lembrou-me do quão fundo podemos ir e a VELOCIDADE a que isso acontece. 

A data é a do dia da minha separação. Eu já não estava bem por todo o aparato dos dias que a antecederam… a isso, a reacção do meu pai à minha apatia geral também não ajudava, pois ele nem sonhava que estava à beira da ruptura e achava que ao fim‑de‑semana eu era a senhora feliz e só andava triste de semana por ir trabalhar… estas duas situações combinadas, levaram a que eu entrasse num colapso mental tremendo. Naquele dia, após o M. sair de vez, eu chorava tanto que mal respirava e no desespero da hora, senti que a minha vida tinha acabado. Assim, decidi tomar TODOS os calmantes que tinha, desde lexotan e xanax a outros. Sei que no o somatório eram 4 caixas, mas como não estavam cheias nem tinha noção exacta do que tinha tomado. Lembro-me de a enfermeira ralhar, literalmente, comigo. De me dizer que podia já estar em coma. E se as caixas estavam cheias porque se estivessem tinha que ser internada em psiquiatria. Estas 3 palavras fizeram-me descer à terra. Menti-lhe. Disse que já estavam quase vazias e que não me tentei matar, só queria acalmar e dormir. Depoid disto, fizeram-me uma lavagem ao estômago obrigando-me a beber carvão activo (caso contrário, entubavam-me) e sob a supervisão da minha mãe lá me deixaram vir embora.

Na altura, eu estava em choque com o fim da minha relação e este episódio minimizou-se na minha cabeça. Talvez porque durante dias e semanas o que eu queria de facto era mesmo morrer de vez. Hoje, quase 2 anos e meio depois, o impacto que rever esta pulseira teve em mim foi brutal. Acho que pela primeira vez vi e revi o que passei, o desespero louco em que estava e como reagi quase que tão levianamente à situação. 

Guardei-a e guardá-la-ei sempre junto a mim a partir de agora. Preciso que ela me lembre sempre o que é estar à beira da morte. E no fundo de um poço de onde ainda estou a tentar sair.

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2 thoughts on “A pulseira laranja

  1. Encontrei tantas semelhanças com a minha história… 😦 já lá vão mais de 8 anos mas marcou-me muito. Estive mal, muito mal… Foi um choque tremendo para a minha família. Depois disso fui encaminhada para psiquiatria e anos de medicação passaram.
    Hoje estou bem, muito bem, zero medicação, sinto-me bem. Mas tenho medo, sabes? Às vezes penso “e se de repente ficasse tudo do avesso?!?”, acho que sou psicologicamente fraca e a tendência auto-destrutiva pode estar apenas adormecida… Não sei. Às vezes tenho mesmo muito medo de mim.

    Já alguma vez sentiste isso?

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    1. Olá Isabel… Obrigada por ler os meus posts. Isto foi há 2 anos e meio e a verdade é que desde aí, embora tenha conseguido não ser internada em psiquiatria, tenho frequentado não só psiquiatras com psicólogos. Tomo muita medicação… e começei com medicação bomba, como a risperidona, serenal, sertralina, etc. Com tudo isso, neste tempo ganhei 40kg… por isso sim… acho que acabo por ter um psicológico fraco, pois vejo pessoas a enfrentarem estas coisas, mesmo em relações longas como a minha, de forma totalmente diferente. Por outro lado, e tendo em conta os muitos problemas que tenho na vida, sobretudo a nível laboral, ocorre-me por vezes que secalhar metade das pessoas não teria nem um terço da minha força para continuar. Hoje em dia tomo prozac e rivotril apenas, victan em SOS pois tenho ataques de pânico de vez em quando e a única coisa sem a qual não passo são comprimidos para dormir, e fortes, senão não consigo pregar olho ou então durmo desmesuradamente… agora, Isabel, em resposta directa: sim, tenho medo de mim. Muito. Porque antes tinha medo da morte e hoje já não. Porque às vezes sinto-me cobarde e prefiro acabar comigo do que ver que magoei alguém. Após a primeira tentativa, mais 1 forte de seguiu, e inúmeras outras paratentativas. Posso dizer-lhe que sei tudo sobre suícidio. Hoje sei exactamente o que fazer para ter uma morte não dolorosa e eficaz. E até há umas duas semanas atrás, num dos momentos muito em baixo, estava decidida. Tinha dia marcado e tudo. E se não fosse a força tremenda de uma recente mas grande amiga, pode crer que o teria feito. Se já me passou? Não. É uma hipótese que equaciono e todos os dias penso no assunto. E é por isso que tenho medo de mim… porque eu não sei se quero viver de tão cansada que estou. É uma tendência, como diz e bem, auto-destrutiva. Eu sei o que faço mal mas insisto por falta de coragem. Eu faço tudo para deixar os outros satisfeitos mesmo que eu fique profundamente prejudicada. Temos que mudar isso… e é aí que está o desafio… só quando aprendemos a dizer NÃO, a gostar de nós e a ter coragem é que passamos a querer viver. E creio que só quando nos agarramos à vida com unhas e dentes é que deixamos de ter medo de nós e passamos a defender-nos forte e feio. Eu chego a pensar que só queria ter uma doença mortal… ser atropelada e morrer, qualquer coisa… e isto não é nada. Força, Isabel… eu estou aqui, e enquanto estiver, pode desabafar à vontade 🙂 um beijinho!

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